Fazendo pedido em restaurantes na Alemanha

Nós brasileiros, comunicativos como somos, gostamos de chegar num lugar e primeiro colocar os papos em dia, principalmente quando estamos em um grupo de amigos, não importando quando nos vimos pela última vez, a prioridade é atualizar os assuntos.

 
Normalmente no Brasil, quando o garçom vem à mesa anotar o pedido e alguém ainda não se decidiu, o atendente espera pacientemente o cliente se decidir, respondendo suas perguntas sem perder a simpatia.

Já os alemães, no seu pragmatismo intrínseco, vão direto ao assunto: assim que os cardápios são distribuídos na mesa, cada um pega o seu, abre-o e aprofunda-se na leitura como se fosse um livro do Goethe! Você pode esquecer o alemão nos próximos três ou quatro minutos, porque ele estará completamente compenetrado pensando no que ele vai pedir, sendo que, o garçom anotará primeiro o pedido das bebidas, e quando ele as trouxer, já estará pronto para anotar o pedido da comida. Sempre nessa ordem, rigorosamente.

O garçom alemão, tentará ser paciente e simpático com um grupo de brasileiros. Ele voltará a mesa após alguns minutos depois de distribuídos os cardápios para anotar o pedido das bebidas. Os brasileiros, obviamente, ainda nem notaram que os cardápios estão ali, darão um sorriso amarelo e dirão: “desculpa, mas precisamos de mais um tempo”. Se você tiver sorte, o garçom devolverá o sorriso e dirá: “ok, volto mais tarde”. E quando o “mais tarde” chegar e os brasileiros ainda não souberem o que vão pedir, pode contar com um primeiro olhar mortal para a turma.

Brasileiros costumam demorar-se mais que os alemães para tomar uma decisão. O fato de estarem constantemente distraídos com a conversa paralela, além de, claro, ter que dar um pitaco e continuar o papo, faz com que nos desviem da atividade de decidir sobre o que consumir.

Feito o pedido das bebidas, vem a hora crucial, escolher a comida!

Um alemão raramente vai perguntar o que você está a fim de comer, e, sendo as porções individuais, não tem essa de „vamos dividir um prato “. Ele não vai compartilhar com o vizinho suas dúvidas e ficar olhando junto o cardápio confabulando „huuummm… será que isso é bom? “, afinal, a descrição do prato está logo abaixo do nome e ele pode imaginar como será a apresentação e gosto da comida. Também não desviará o assunto para outras questões, é hora de se concentrar na tarefa de definir o pedido.

A essa altura o garçom alemão já voltou com a sua maquininha para anotar os pedidos, e obviamente, os brasileiros ainda não chegaram a uma conclusão.
Tomando-se de muita paciência e tentando demonstrar simpatia, o atendente dirá novamente que voltará mais tarde, e, quando o mais tarde novamente chegar, começarão as perguntas a respeito dos acompanhamentos e ingredientes: “será que dá para trocar purê de batata por batata frita? Dá para trocar os legumes por salada?”. Há alguns restaurantes que cobram pela troca de algum item do prato, mas isso é raro. Geralmente os pedidos especiais são atendidos.

É comum, em um grupo grande de pessoas, o atendente ir anotando os pedidos conforme a ordem em que as pessoas estão sentadas, um atrás do outro, sem pular ninguém. Se você começa a pedir descoordenadamente poderá atrapalhar o alemão no cumprimento da sua tarefa.

Os brasileiros, porém, não se atem as regras, ou melhor, nem se dão conta delas, já que não são regras e sim observações de comportamento sutil de uma brasileira que está aqui há muito tempo.

Larissa d’Ávila da Costa, Gilching dezembro 2017