Você não precisa de holofotes para ser uma pessoa bem-sucedida

Em busca de plataformas para divulgar o evento que estou organizando do projeto Carlotas, deparei-me com um post em um blog, o qual leva o título: “10 brasileiros de sucesso na Alemanha”. Curiosa, cliquei e fiquei imensamente decepcionada com o texto, por que o post nomeia, predominantemente, brasileiros famosos no futebol ou na mídia.
Não pretendo menosprezar o sucesso desses brasileiros, porque, certamente, são ótimos profissionais, que batalharam muito para conquistar o seu lugar ao sol e ainda trabalham muito por ele.

O que eu quero dizer é que você não precisa de holofotes para ser uma pessoa bem-sucedida. Quando eu li o título do artigo e cliquei no post, esperava a menção de pessoas “comuns”, que não aparecem na mídia, das quais não sabemos da existência, e que mesmo assim estão aí batalhando, trabalhando duro para realizar-se profissionalmente e tendo suas pequenas grandes conquistas diárias.

O mérito do sucesso não é somente superar o idioma estrangeiro, entender o sistema, adaptar-se a ele (ou aceita-lo), está em buscar aquilo que gosta de fazer, acreditar num sonho, realizar um projeto e ser reconhecido por isso. A vida é tão dura e impõe tantos obstáculos e desafios, que, não é preciso ser milionário ou famoso para ser uma pessoa de sucesso. Basta você olhar para a maioria dos trabalhadores brasileiros de classe baixa, que mesmo sem a educação necessária e contra todas as adversidades da nossa sociedade estão batalhando para ter uma vida digna.

Eu esperava ler no artigo histórias de pessoas que vieram para a Alemanha e conseguiram realizar-se profissionalmente e pessoalmente apesar dos reveses. Há tantos exemplos, que, no final desse artigo vou citar apenas alguns que me surgem espontaneamente de amigas e conhecidos, os quais admiro muito pela sua persistência e realização.

Por fim, é sobre isso que o nosso workshop “Eu num mundo novo, um mundo novo em mim” irá tratar, de inspirar as mulheres brasileiras que aqui estão em busca da sua realização pessoal. O importante, no final das contas, não são os holofotes, é a realização e reconhecimento do seu trabalho.

Minha pequena lista pessoal de brasileiros de sucesso na Alemanha, incompleta e passível de adições.

Scheila da Silva-Hofmann, sua batalha começou na sua terra Natal, Porto Alegre, sofrendo discriminação por ser negra e de família humilde, sua primeira grande conquista foi conseguir cursar uma faculdade. Veio para a Alemanha numa época em que não se falava em respeito à diversidade. Prosperou como tradutora e professora de português e atualmente trabalha com Biomeditação.

Teresa Thelen, consultora de Colônia: levou muitos nãos no início da sua vida na Alemanha, mas nunca resignou-se a eles, continuou firme nas suas propostas e metas e assim foi trilhando seu caminho em terras germânicas. Hoje em dia dá consultoria para aqueles que estão em busca da realização profissional e ensina-os a descobrir seus talentos e persistir nos seus sonhos.

Lu Pohl, da Brazilian Beauty em Dresden: quando ela abriu seu salão de depilação foi alvo de muitas críticas, pois todos diziam que os alemães não se depilam e não há público brasileiro suficiente em Dresden para levar o negócio adiante. Hoje você tem que ligar com muita antecedência para conseguir um horário, a maioria dos clientes são alemães e o número de brasileiros em Dresden praticamente triplicou desde então.

Sandra Herzog, confeiteira em Dresden: história parecida com a da Lu, quando começou seu negócio ninguém acreditava que iria dar certo, pois “os alemães não fazem festa grande com bolo e docinhos”. Hoje ela entrega suas encomendas por correio para toda a Alemanha.

Carolina Nunes, querida amiga paulistana, que, mesmo sem ter tido química na escola no Brasil, formou-se em engenharia química em São Paulo, casou com um brasileiro descendente de alemães, imigrou para a Alemanha com ele, cursou todo o doutorado em engenharia química, e, depois de trabalhar muitos anos como pesquisadora na universidade, hoje é professora numa escola pública alemã.

Andrea Lang, veio para a Alemanha por causa do amor, entrou em depressão profunda, teve uma separação dramática, tratou-se, e com muito afinco e força de vontade, superou a doença, deu a volta por cima e atualmente cursa o curso técnico para ser educadora infantil.

Iramaia Kotschedoff, começou seu negócio com feiras e eventos há 25 anos, na época em que isso não era moda, a comunicação não era tão rápida e fácil e as diferenças interculturais eram resolvidas na pratica com muito jeitinho brasileiro. Leva seu negócio com muito profissionalismo e dedicação, na atualidade gerencia o Iramaia Business Solutions.

Evelyn Zopf, foi babá dos meus filhos, ama criança e sempre teve o sonho da maternidade. Esse sonho se realizou e é mãe de dois pimpolhos lindos. Ela não quer trabalhar, quer curtir seus filhos o quanto puder e ficar em casa com eles. Educa-os de maneira exemplar e supera todos os desafios de um gerenciamento familiar. Mas a minha maior admiração por ela é a convicção de se sentir realizada estando em casa e cuidando da sua família. Com a pressão que a mulher moderna carrega para ter carreira profissional, admitir e realizar esse papel, é exemplar.

Valesca dos Anjos, gaúcha, corretora de imóvel, que, nunca tendo saído do Brasil anteriormente, veio para a Alemanha atrás de um amor, chegando aqui, decepcionou-se, mas não deixou a peteca cair. Anunciou no grupo do Facebbok das Brasileiras de Munique para trabalhar como babá, faxineira, cuidadora de pessoas idosas, cozinheira, o que fosse. O objetivo dela era juntar a grana necessária para dar entrada no pedido de visto como estudante de alemão. Em dois meses ela conseguiu e está aqui, trabalhando e aprendendo alemão.

Celso Fernandes, veio para a Alemanha como estudante, passou dificuldade financeira durante toda a faculdade, formou-se, começou a trabalhar e é um empreendedor de sucesso. Sua história está muito bem relatada na sua retrospectiva de 10 anos de Alemanha https://batatolandia.de/blog/10-anos-comendo-batata-um-memoir

Há tantos exemplos de brasileiros bem-sucedidos que seria injusto delimitarmos a um determinado número. Perdoem-me àqueles que não foram citados, mas reconheço em cada um o esforço dessa batalha.