A eterna discussão sobre a imigração e integração na Alemanha

A reflexão começou a partir de uma expressão usada pela mãe de um amiguinho da minha filha. Ela, nascida na Alemanha, filha de imigrantes turcos. Estávamos falando sobre o tempo, que está quente e úmido no momento, e eu disse: está parecendo o Brasil, ao que ela respondeu: “ja, bei uns ist auch so” – sim, conosco também é assim (querendo dizer com o “conosco”, na nossa pátria).

Na hora eu pensei: o que ela quer dizer com “conosco também é assim” essa mulher nasceu e cresceu na Alemanha, fala perfeitamente alemão até o dialeto da Bavária ela domina. Ela é, ao meu ver, alemã!”

Essa expressão, entretanto, é muito usada entre os filhos de imigrantes na Alemanha. Não somente os descendentes de turcos, como também de italianos, espanhóis, sérvios. O país e a cultura de referência deles continua sendo o país de origem dos pais, apesar de eles terem nascido e se criado na Alemanha.

Eu não sou socióloga nem historiadora e as reflexões que exporei a seguir são totalmente de cunho pessoal, fruto das minhas leituras, experiências pessoais e observações. Com base nisso, eu diria que os motivos pelo quais os filhos de imigrantes continuam se referindo à “pátria deles” como a terra natal dos pais, é que a história de imigração ainda é muito recente e que a distância entre os países é pouca, oportunizando, dessa forma, a constante visita ao país de origem.

Um pouco de história para se entender os fatos: entre 1821 e 1924 cerca de 55 milhões de europeus imigraram para terras além-mar. O motivo da emigração em massa nessa época foi a colonização de novas terras e busca de novas oportunidades. Já em consequência às duas guerras mundiais a razão para a emigração foi a perseguição política. Ou seja, em curto tempo, a Europa sofreu uma grande perda da população.

Passada a segunda guerra mundial, a Alemanha viveu nos anos 50 um grande crescimento econômico o que levou a uma drástica falta de mão de obra. Para resolver o problema, a então Alemanha Ocidental começou a fechar acordos com países vizinhos para facilitar a imigração de trabalhadores braçais. O primeiro acordo foi fechado com a Itália em 1955, seguido da Espanha e Grécia em 1960, Turquia em 1961, Marrocos (1963), Portugal (1964), Tunísia (1965) e Iugoslávia (1967). No ano de 1964 já residiam na Alemanha Ocidental um milhão de imigrantes vindos em razão desses acordos de trabalho. Essa política de imigração foi executada até o ano de 1973, quando em decorrência da crise de petróleo, os acordos foram rescindidos.

Note-se, portanto, que a história de imigração ainda é muito recente. É natural que a primeira geração nascida na Alemanha ainda tenha como referência os valores culturais trazidos pelos pais. Além disso, a distância entre os países é curta, facilitando a visita e o contato com os parentes que ficaram no país de origem.

Recentemente dois jogadores na seleção alemã de futebol, descendentes turcos, Özil e Gündogan, causaram furor na imprensa e nos alemães em geral, ao encontrarem-se em Londres com o ditador da Turquia Erdogan e presenteá-lo com uma camiseta dos clubes para os quais jogam: Özil com uma camiseta do Arsenal e Gündogan com uma do Manchester City autografada por ele com a seguinte mensagem escrita em turco: “para o meu estimado presidente. Muito atenciosamente.” Esse ato infeliz por parte dos dois atletas abriu novamente a discussão acerca da integração dos imigrantes na Alemanha. A crítica mais ferrenha dos alemães é: eles são nascidos na Alemanha, aceitos e integrados na sociedade, o jogador Gündogan nem cidadania turca possui (somente a alemã) por que raios eles vão homenagear o presidente da Turquia?

Numa saia extremamente justa, os dois jogadores tentaram justificar o infortúnio da seguinte forma: “por causa da nossa descendência, ainda temos um laço muito forte com a Turquia. Aproveitamos a oportunidade para fazer uma homenagem aos nossos pais, não tínhamos nenhuma intenção política com o ato”. Mesmo assim os torcedores alemães não deixaram o desaforo passar em branco e, nos amistosos da seleção alemã nas semanas seguintes, ambos atletas foram vaiados quando entraram em campo, especialmente o Gündogan.

Costumamos comparar a integração de imigrantes na sociedade europeia com a nossa própria história de país constituído por imigrantes. Dizemos com muito orgulho que “todo mundo é brasileiro” e que todo mundo convive numa boa com todos os tipos de raças e religiões. Será mesmo?

Para analisar com mais precisão o assunto, temos que levar em conta que o nosso país foi constituído por colonizadores e que a emigração de europeus se deu ao longo de toda a história do Brasil. Há que relembrar que os primeiros imigrantes não eram integrados na sociedade brasileira, viviam somente entre eles, cultivavam suas tradições e seu idioma. Por conhecimento próprio, vindo do Rio Grande do Sul, sei que as colônias alemãs foram as que preservaram por mais tempo sua língua e tradições. É comum ouvir dos descendentes (não só alemães), histórias de seus avós e bisavós que se diferenciavam entre “eles” e “nós”. Eles eram os brasileiros, os outros, os bugros, índios, negros. O “nós” eram designados os imigrantes e tinham uma aura de serem melhores que os outros. Se hoje nos consideramos todos brasileiros, esse sentimento é fruto de uma história de muitas gerações.

A história de imigração na Europa ainda é recente. É um continente acostumado a emigrar, muito tradicional nos seus costumes e arraigados às suas origens. Os Europeus estão trabalhando em aceitar a diversidade e respeitá-la e ainda assim notamos um movimento populista muito forte e crescente.

Acredito que a Europa ainda tenha um longo caminho a percorrer no que tange a construir esse sentimento de todos pertencerem a uma só nacionalidade e realmente se identificar com ela. Esse é um trabalho de muitas gerações e nós estamos apenas no começo.

Larissa d’Ávila da Costa, Gilching junho de 2018