Mulheres, carreira e família

Na Focus alemã de 16 de abril 2007 há um artigo que fala sobre a diferença salarial entre homens e mulheres. Sim, ainda existe. E muita. Mesmo na Alemanha, berço de mulheres feministas e “duronas”, por toda a sua história de pós-guerra, as mulheres ainda recebem menos que seus colegas homens pelo mesmo tipo de trabalho.

Para citar exemplos de salário bruto mensal (sem desconto de impostos e encargos sociais) de arquitetos e engenheiros civis: mulheres recebem em média: 3.311 euros, homens 4.447 euros; bancários mulheres: 2.998 euros, homens 4.150; contadores mulheres: 3.001 euros, homens: 4.060 euros e há ainda profissões em que a diferença salarial chega a 40%.

O artigo aponta as causas: mulheres trabalham normalmente em empresas pequenas e em áreas em que a média salarial é menor. Elas exercem atividades mais simples, que não são tão bem pagas e só uma pequena minoria atinge posições importantes de chefia. Além disso, as mulheres trabalham na grande maioria meio período, porque elas se sentem responsáveis pelo bom andamento da vida familiar.  Discussões e diferenças entre realidades de Brasil e Alemanha à parte, o ponto da questão gira em torno de um só: família!

Por mais independente que a mulher se torne, ou se tornou no decorrer dos anos, ainda é ela que nutre a família. Ela que a gera e a cuida. É a mulher que vai abrir mão de sua profissão e carreira para se dedicar aos filhos ou seguir o seu marido, para onde quer que ele seja transferido.

Chegando nesse ponto em especial, quero chamar a atenção para as mulheres que, seguindo essa lei da natureza, improvável de ser mudada, deixam suas profissões e independência no Brasil em prol do amor e da família e vêm  morar na Europa (ou em outro lugar que seja) seguindo seus maridos. Advogadas, contadoras, arquitetas, psicólogas, fonoaudiólogas,  que na maioria das vezes já trabalhavam no Brasil e tinham emprego fixo, dedicam-se agora à família, enquanto seus maridos trabalham.

Agora ao invés de deixar os filhos na escola e seguir para o seu trabalho, elas aprendem (e também lutam com isso) o idioma e a cultura diferente, tentam integrar-se e conquistar novas amizades, dedicam-se a atividades para as quais nunca teriam tempo se estivessem trabalhando, como por exemplo, curso de corte e costura ou tricô, vão a academia, cozinham, fazem compras, cuidam da casa e dos seus.

Não por isso creia-se que é uma vida fácil. Deixar de ser independente e passar a dedicar-se a família requer muita paciência e alto astral para não se deixar abater pela depressão. Para aquelas que sempre trabalharam, que tinham uma rotina de vida fora de casa e uma carreira a seguir, abdicar de tudo isso e de repente ver-se cuidando de filhos e marido, e ao mesmo tempo tentar recomeçar a vida profissional no exterior significa ter muita coragem de viver uma nova experiência e sacrificar seus objetivos profissionais em nome da família.

A esperança de voltar ao mercado de trabalho está sempre presente. Fomos criadas numa sociedade onde as mulheres têm quase que obrigação de ter sucesso profissional. Não trabalhar, não produzir nos parece algo como que retroceder no tempo de nossas avós. A experiência de viver no exterior é, certamente, única,  acrescenta valores, dá uma nova visão de mundo, faz você rever muitos conceitos antes decretados como imutáveis, além do novo idioma que se aprende. Entretanto, experiência de vida pode ser difícil de ser comprovada na hora de passar por uma entrevista para um novo emprego, mas com certeza ela deixará suas impressões, pois isso nos torna mais maduras e seguras de si.

 O artigo da Focus ainda dá umas dicas para aquelas mulheres que, depois de um “período de dedicação familiar”, procuram voltar para o mercado de trabalho: explore capacidades que foram desenvolvidas durante a fase familiar como habilidade de persuasão com sensilibidade, organização, administração do tempo e liderança de grupo, elas poderão ser utulizadas como pontos positivos em posições de chefia.

Então, já que não podemos fugir do nosso instinto maternal e de proteção da família, aliemo-nos a ele!

 Larissa d’Avila da Costa, Mannheim, abril 2007.