O desconvite II – funeral na Alemanha

Tenho uma grande amiga brasileira que mora na Alemanha há 25 anos e já presenciou e se acostumou com muitas esquisitices alemãs, mas esse causo lhe chocou, ela recebeu um „desconvite“ inusitado.

Tudo aconteceu um pouco antes da Pascoa, ela sugeriu um encontro com o nosso grupo de brasileiras para depois do feriado. Algumas já haviam confirmado a presença, quando ela escreveu novamente: “meninas, desculpem-me, terei que desmarcar nosso encontro, pois o tio do meu marido faleceu e iremos para o enterro na semana que vem”. Ficamos todas consternadas, mandamos os pêsames para a família e assunto encerrado.

Pois hoje, passado o feriado de Páscoa, ela escreve novamente no grupo: “meninas, podemos nos encontrar sim essa semana, o falecido escreveu uma lista de pessoas que ele gostaria que estivesse no seu funeral e nossos nomes não constam nela, portanto não fomos convidados”.

Sim, eles foram desconvidados para um funeral. Eu já fui desconvidada para o aniversário de 60 anos da tia do meu marido, como já escrevi na crônica „o desconvite“( https://www.brasanha.de/o-desconvite/), mas ser desconvidado para um enterro é bizarro demais. Primeiro porque você vai a um velório não somente para se despedir pessoalmente do falecido, mas também, e principalmente (ao meu ver) para confortar a família.

Visivelmente o dito cujo não pensou por esse lado, imaginando sua própria cerimônia de luto entre as pessoas que ele gostava.

Entretanto, se vocês leram com atenção a história, irão notar mais duas esquisitices na narrção. A primeira é: enterro depois de uma semana do falecimento?

Sim, na Alemanha não existe o velório tal como conhecemos no Brasil. Aqui, depois dos procedimentos burocráticos que atestam o óbito, o defunto vai para uma câmara fria da funerária até ser organizada a cerimônia de despedida, o enterro ou cremação, e isso, geralmente, acontece dentro de uma semana ou um pouco mais. Já escutei de uma outra amiga, que foi convidada para um enterro, mas a cerimônia foi postergada, pois não havia covas abertas (aqui não há covas em paredes) e, sendo inverno, a terra estava dura demais para ser escavada.

A segunda esquisitice é: nesse meio tempo, a família organiza uma pequena recepção para os convidados, e sim, os convidados recebem um convite em forma de cartão ou telefonema para a cerimônia de despedida. Se você for convidado, vai a cerimônia, se não, como no caso da minha amiga, limite-se a mandar um cartão de pêsames.

Os procedimentos de enterro após uma semana do falecimento e mandar convite para a cerimônia de despedida são comuns na Alemanha. Porém a lista feita pelo falecido não é a praxe, e até mesmo os alemães ficaram chocados com a atitude, entretanto, há que se respeitar o desejo do falecido e suas esquisitices.

Larissa d’ Ávila da Costa, Berlin, abril 2019