Quando você perde o poder de decisão

“Uma das coisas que mais me chocou quando eu cheguei aqui é não ter mais o poder de decisão sobre temas essenciais da minha vida”. Essa observação foi feita por uma das minhas novas amigas brasileiras chegada há menos de um ano em terras germânicas e veio refrescar minha memória com suas vivências, as quais eu também já passei, mas que, devido ao tempo, já foram amenizadas.

Quando ela me disse isso, eu perguntei: “como assim?”, e ela narrou:

“Primeiro você chega aqui, procura lugar para morar, mas não é você que escolhe o imóvel, é o proprietário que escolhe o inquilino. Aí você procura uma escolinha para o seu filho, informa-se na internet uma que você gosta, que se identifica com a pedagogia, inscreve seu filho, mas te dão vaga numa outra bem diferente, porque é a que tinha vaga, e por aí vai…”

Parei para pensar e lembrei da minha própria experiência quando comecei minha vida na Alemanha, quando eu e meu marido (então namorado) decidimos morar juntos e fomos em busca do nosso primeiro apartamento em comum. Visita aberta ao público com vários interessados, ficha de inscrição, comprovante de renda, toda documentação entregue e a torcida para ser selecionado. Dos critérios usados pela imobiliária ou proprietário não se tem ideia, é sempre uma questão de sorte ou simpatia.

Encontrar imóvel para alugar dependendo da cidade para onde você vai, é missão praticamente impossível. A falta de imóveis nos grandes centros e seus arredores é problema grave e a briga para conseguir um teto é acirrada. E não importa o preço do aluguel, tem muitos casos em que os interessados oferecem até mais do que o proprietário está pedindo para conseguir o imóvel. O proprietário (ou imobiliária), portanto, tem o poder de escolha, ele decidirá pelo inquilino.

Vaga na escolinha (Kindergarten) ou recreação para o filho após a escola (Mittagsbetreuung, Hort) igualmente somente se houverem vagas e se você conseguir uma, não importa o lugar que seja, fique agradecido!

Comprou móveis e mandou entregar? Contratou serviço de montagem de cozinha? Além de você ter que pagar caro por esses serviços, a prestação dos mesmos não será imediata, a você será dado uma data e, caso você não possa, terá que esperar no mínimo mais duas semanas pela próxima data disponível.

A onda de emigração da classe média brasileira para o exterior por causa da atual crise financeira, política e de valores do Brasil, faz com que esses cidadãos deparem-se com uma nova realidade: a de fazer parte do “povão”, no sentido daquele que não tem regalias, serviços e serviçais à sua disposição e que, à sua maneira, tem que se virar para resolver seus próprios afazeres domésticos, esperar por vaga em jardim de infância público, esperar para ser atendido por um profissional de saúde (ok, ainda sim muito melhor que no Brasil), acostumar a privar-se de pequenos privilégios atribuídos àqueles que possuem melhores condições financeiras no nosso país.

Nos países do hemisfério norte, a discrepância entre as classes sociais não é tão evidente. Obviamente a partir de um certo grau de posição social e econômica esses pequenos privilégios pagos também existem, mas não é acessível para o novo “brasileiro-classe-média-emigrante”. Esse terá que se adaptar e se acostumar a esperar, a ter paciência, a não reclamar por qualquer coisinha, a pagar caro o profissional que presta serviço, e a dar-se conta, que não importa que você tenha dinheiro, você será tratado como os demais.

A princípio pode parecer um downgrade na condição social, mas, passados os primeiros sustos e desafios, vem a adaptação, o amadurecimento e o reconhecimento que sim, não detemos completamente o poder de decisão sobre temas essenciais da nossa vida, mas crescemos imensamente como seres humanos a partir do momento em que valorizamos cada prestação de serviço, cada amizade conquistada, cada favor recebido, porque, afinal de contas, o que importa é aprender com as novas experiências.

Larissa d’ Ávila da Costa, Gilching novembro de 2018