Quanto tempo você levou para aprender alemão?

Estou há 16 anos na Alemanha e ouço frequentemente essa pergunta. Infelizmente ela não tem uma resposta exata, pois a partir do momento que você mora num país estrangeiro, você nunca termina de aprender o idioma local. Sempre há um vocabulário novo para aprender ou aperfeiçoar. Mas vamos partir do princípio que a pergunta se refere somente à comunicação básica.

Admito que esse idioma parece impossível de aprender para os recém-chegados. Eu mesmo quando me deparei com a língua achei que nunca seria capaz de dominá-la um dia. Mas poderia ser pior, os idiomas eslavos, escandinavos, árabes ou asiáticos certamente são muito mais difíceis que o alemão. Esse assusta no começo, mas depois que você (finalmente) entende a estrutura da língua, é só ir aperfeiçoando.

Ao meu ver, há fatores que determinam muito a rapidez no aprendizado de um idioma, são eles: talento, motivação e determinação.

Para quem tem facilidade em aprender um idioma estrangeiro, a tarefa se torna mais descomplicada. Há muitas pesquisas que estudam a origem dessa facilidade e apontam que ela não é um dom inato, ela deriva das condições socioculturais, familiares e educativas em que a criança cresce. Uma criança que cresce em contato com idioma estrangeiro terá mais facilidade em aprende-lo, por exemplo. Muitas pessoas simplificam o aprendizado de um idioma baseando-o no talento e usam a falta dele para justificar sua dificuldade em executar a tarefa.

Entretanto o agente que mais ajuda na aquisição de uma língua estrangeira é a motivação. Essa é a conclusão, a qual chegou a linguista Katrien Mondt: “não é a capacidade, se não a atitude, que facilita o aprendizado de um idioma em todas as idades”. Isso é, temos que querer, necessitar, praticar, estar dispostos a dedicar-nos a tarefa, e aí entra o outro fator: a determinação. Sem motivação nem determinação não há talento que faça milagres.

Para que eu possa responder concretamente essa pergunta, há que explicar minha trajetória em terras germânicas: eu cheguei na Alemanha sem conhecimento nenhum da língua para trabalhar numa sorveteria italiana. No dia seguinte à minha chegada, já estava no balcão vendendo sorvete sem entender uma palavra do que as pessoas me diziam, nem os números, nem os sabores. Nessa temporada, aprendi somente o essencial para o trabalho, falava italiano com a família dona da sorveteria, me virava em inglês para o que tivesse que resolver na rua.

Quando terminou meu contrato de trabalho, decidi ficar na Alemanha e, para isso, teria que aprender alemão. Mesmo frequentando o curso já em estado avançado, continuava falando inglês com os alemães que tinha conhecido e usando esse idioma para resolver o que eu tivesse que fazer. Somente quando conheci meu namorado (agora marido) e passado os primeiros meses comunicando-me em inglês é que ele pronunciou a fatídica frase: “acho que já estás tempo suficiente aqui e em um nível avançado na escola para conseguir falar em alemão. A partir de agora, vamos falar somente alemão. Se você falar comigo em inglês e eu achar que você consegue dizer o que quer em alemão, não vou responder até você, pelo menos, tentar falar em alemão.” Quando isso aconteceu eu já estava há um ano e meio na Alemanha.

Foram algumas semanas de pouco diálogo em casa (risos!) e esse desafio foi minha maior motivação para aprender esse idioma. Claro que foi difícil no começo para os dois, para mim pelo esforço de usar a língua, para ele por ter que falar com vagar, me corrigir, se concentrar para usar estruturas e palavras fáceis para eu entender.

Superar a vergonha de errar, começar a pensar direto na língua sem traduzir são certamente os obstáculos mais difíceis de vencer no começo. Respondendo, portanto, concretamente à pergunta, eu levei quase dois anos para conseguir me comunicar completamente em alemão desde que cheguei aqui.

Depois de 16 anos nesse país, que tão bem me acolheu, posso dizer que domino muito bem o idioma em geral, ou seja, na compreensão, fala e escrita.

Na compreensão ainda há situações nas quais eu perco alguns lances (especialmente quando estou cansada ou o assunto não me interessa), expressões idiomáticas ou vocabuário específico de alguma área, por exemplo economia ou política. Isso quando a pessoa está falando o “hoch Deutsch”, que é o alemão gramaticalmente correto, sem as influências dos dialetos. Se formos falar de cada dialeto na Alemanha, esse post não terá fim, por que em relação aos dialetos, nem os alemães se entendem.

Na fala, a mesma coisa, consigo me comunicar bem. Nas situações rotineiras, diria que domino muito bem, especialmente quando tenho que contar a minha trajetória de vida. Como na compreensão, o domínio de vocabulário específico exige mais estudo, leitura dirária de jornais e conversa mais “cabeça” com alemães.

A escrita….ahh… essa é problemática! Certamente é a parte mais difícil de todo o aprendizado. Essa, desculpem, meus caros leitores, mas é quase impossível dominar 100%.

Reforçando, o tempo do aprendizado é totalmente individual e depende muito da experiência e do esforço pessoal de cada um. Se você fala inglês, certamente usará esse idioma para se comunicar, se as suas amizades são unicamente com pessoas do mesmo país de origem, vai demorar bem mais para se integrar e ter a oportunidade de exercitar o alemão. O fator determinante do aprendizado são a motivação e a determinação.

E, por fim, por mais que você fale e entenda o idioma, sempre há o que aprender, por que o aprendizado e aprimoramento não acabam nunca.

Larissa d’Ávila da Costa, Gilching, junho 2018.