Retrospectiva 2020 – Considerações gerais

Foi um ano particular. Usei esse adjetivo para a crônica não ficar pesada desde a primeira frase. Particular é um adjetivo bem neutro para descrever esse surrealismo que estamos vivendo. Nesse ano de incertezas e caos, há, entretanto, algumas certezas particulares que ficaram claras para mim:

– Certeza nr. 1: sim à escola presencial e sala de aula!
Reafirmando a premissa da crônica do começo da pandemia: definitivamente ensino à distância não é o modelo de aprendizado ideal para crianças (nem para mães). Sim, há muita discussão sobre o modelo tradicional de ensino, com as crianças sentadas na sala de aula e os métodos e conteúdo de aprendizado. Mas, a solução de ensino a distância, pelo menos para as crianças do primário, a meu ver, não é a solução ideal. Criança precisa de convívio, precisa trocar ideias, precisa discutir, entrar em conflito, resolvê-los sozinha, aprender a lidar com as emoções e situações que a sociedade impõe, e isso começamos a aprender e vivenciar na escola. Home-schooling definitivamente não oferece essa oportunidade às crianças, que, desse modo tornam-se cada vez mais isoladas e egoístas.

– Certeza nr. 2: a luta das mulheres continua!
Diferentemente das gerações anteriores que lutaram pela emancipação, basicamente pelo direito de votar, participar da vida política, social e trabalhar, as mulheres ocidentais da minha geração e futura tem que continuar a luta, dessa vez pela equidade de gêneros. Enquanto o homem for o principal provedor dos lares não haverá equidade de gênero, ou seja, a mulher continuará a ter dupla jornada de trabalho (em casa e fora) e seu trabalho remunerado continuará a ser subestimado pela sociedade, já que muitas vezes é considerado um “complemento” do salário do homem. Durante a pandemia e a fase de ensino a distância, essa discrepância se tornou evidente, quando ouvimos relatos de mulheres trabalhando igualmente à distância, e, durante a sua jornada de trabalho, atendem paralelamente aos filhos nas suas atividades escolares, enquanto os homens, ou continuaram a trabalhar do escritório ou trancam-se em um cômodo fechado para conseguir trabalhar “em paz”. É uma luta pela desconstrução de um paradigma que durará muito tempo, mas temos que mudar esse padrão. Sobre esse tema, recomendo o livro “30 horas” de Nadiane Kruk. Segue o link de uma entrevista da autora para o batatolandia, na qual eu participei:

https://www.batatolandia.de/blog/inspiracao/nadiane-kruk-sobre-equidade-de-genero-e-equilibrio-vida-trabalho

– Certeza nr. 3: a humanidade é egoísta!
Desculpem-me a afirmação dura e extrema, é uma opinião particular. No começo da pandemia houve várias confabulações sobre “o que o universo está querendo nos mostrar com essa pandemia”, “vamos nos voltar a nós mesmos, descobrir a vida mais simples, reduzir o consumo, voltar-nos à família”. A opinião era quase unânime de que esse grande desafio veio para mostrar o lado bom do ser humano. Na minha opinião pessoal, essa pandemia nos mostrou exatamente o contrário: o lado egoísta, a falta de tolerância, de paciência, a carência de política que tratem da saúde e catástrofes a nível internacional, a deficiência da saúde pública mundial, a arrogância e falta de escrúpulos de políticos, a miséria internacional. Isso nota-se mais uma vez agora, na época do Natal, quando as pessoas ao invés de se retraírem voltando ao verdadeiro “espírito natalino”, de simplicidade, estão enlouquecidas atras dos últimos presentes, reclamando das restrições impostas pelo governo alemão dias antes do início das festividades, como se o mais importante para a data fosse a troca de presentes e não a troca de afeto.

– Certeza nr. 4: o ser humano é um ser criativo e sociável.
O isolamento acelerou a digitalização e abriu novas possibilidades de encontros, shows, exposições virtuais, desenvolvemos novos caminhos e métodos para que a troca seja possível de alguma forma. Esse é o lado criativo, inteligente e adaptável do ser humano. Entretanto essa troca virtual não substitui a física. Precisamos do contato, do tato, dos cheiros, dos sabores. Precisamos da risada, da espontaniedade. Nada disso é possivel no mundo digital.

– Certeza nr. 5: as misérias tornaram-se mais evidentes!
As misérias da humanidade tornaram-se mais evidentes com a pandemia. Apesar de o virus não escolher país nem classe social para atingir, sofrem e morrem mais aqueles que tem menos condições econômicas, como sempre. Ficam mais sozinhos, aqueles que menos tem possibilidade de se locomover, como os idosos. A violência doméstica aumentou, considerando que as pessoas menos privilegiadas são as que menos tem estabilidade emocional para aguentar suportar os conflitos resultantes do confinamento. Trabalham mais sem ganhar de acordo com a importância do seu labor, aqueles que não tem o poder dos lobbistas a seu favor, como os enfermeiros, cuidadores e profissionais da educação.

– Certeza nr. 6: eu defintivamente não gosto de cozinhar!
Como já é claro e notável da minha pessoa, eu detesto cozinhar! Já afirmei isso na primeira cronica no inicio da pandemia e, infelizmente, isso não mudou nos últimos meses.

– Certeza nr. 7: falta imensa dos meus amigos
Devido aos longos periodos de reclusão e lockdown, convivemos intensamente com o nosso nucleo familiar. Nem sempre é facil, mas, graças a muita estabilidade emocional, resiliencia e conversa, foi possivel manter o bom convívio familiar. Tudo muito bem e muito lindo, mas confesso que senti uma falta imensa das minhas amigas e amigos, dos meus encontros “mulherada”, dos encontros das familias brasileiras aqui da minha cidade, de almoçar com uma amiga, de se encontrar e bater um papo. Os amigos amenizam nossa rotina, rimos, trocamos experiencias, lamentamos, confessamos para os melhores amigos, aquilo que nos inquieta, que nos preocupa. Inquietações essas que talvez não queiramos partilhar com o parceiro, com os pais, para não causar-lhes preocupação. Com os amigos podemos reclamar os filhos, do marido, da rotina sufocante. Planejar viagens e encontros, que, mesmo sabendo que, possivelmente não serão realizados, nos fazem sonhar e por alguns momentos esquecer das preocupações. Amigos são a familia que escolhemos. É com eles que podemos contar quando não temos a nossa familia por perto. E para os meus amigos e amigas: vocês fazem muita falta!

– Certeza nr. 8: a saudade é dor pungente!
Como já canta Maria Bethania, minha cantora preferida, a saudade é dor pungente, morena! Saudade imensa da minha familia no Brasil, dos meus amigos de longa data, dos sabores e cheiros do meu país. A falta de perspectiva de encontrá-los novamente agrava a saudade, pois junta-se a ela a ansiedade.

Pessoalmente, a grande lição dessa pandemia foi exercitar a resiliencia. Resiliencia para ver a realidade e se dar conta de que nada podemos fazer a não ser colaborar para que o todo funcione, para que mantenhamos a calma, a sanidade mental, para não entrar em depressão, para acudir o próximo, enfim, para que tenhamos, muito mais do que nunca, esperança de que dias melhores virão!

Larissa d’Avila da Costa, Gilching, dezembro 2020